Exemplos de
grandes incêndios aconteceram na cidade de São Paulo, nos edifícios Andraus em
fevereiro de 1972 e Joelma em fevereiro de 1974, resultando em 352 vítimas,
sendo 16 mortos e 336 feridos (Andraus) e 499 vítimas, sendo 179 mortos e 320
feridos (Joelma).
Os incêndios em meios urbanos destroem habitações, fábricas,
bibliotecas, museus, etc e podem provocar elevados danos e impactos materiais e
pessoais como, por exemplo, o incêndio do dia 28 de janeiro de 2013 na Boate
Kiss em Santa Maria, na Região Central do Rio Grande do Sul. Este incêndio deixou 239
mortos e 131 feridos. Logo, os incêndios urbanos tem se tornado presente e com
tendência de virar grandes tragédias por vários fatores como à falta de
hidrantes, dificuldades de acesso das viaturas e principalmente em
função da falta de equipamento preventivos contra incêndios nos Centros
Históricos.
No Brasil, o
mapeamento e monitoramento de áreas de incêndio urbano têm aumentado
significativamente nas últimas décadas, principalmente em edificações de grande
porte em função do desenvolvimento e aplicação das normas de segurança. Porém,
segundo Baranoski (2008), essas normas de segurança não atingiram as
residências unifamiliares autônomas, principalmente aquelas localizadas em
assentamentos urbanos precários onde os fatores de risco de incêndio são
potencializados, devido principalmente às características das edificações e do
aglomerado urbano onde as mesmas estão inseridas.
De acordo com BREDA (2010):
Nas últimas décadas, ocorreram grandes desenvolvimentos na
prevenção e combate, sendo que o avanço das tecnologias informáticas promoveu
novas perspectivas e ambições. Atualmente, existem modelos matemáticos que,
através de simulação por computador, permitem prever com bons resultados a
evolução de um incêndio, a propagação das chamas e fumos e o comportamento dos
materiais e das pessoas.
Logo, este
trabalho tem sua justificativa na medida em que possibilita compreender a
distribuição espacial de dados oriundos de fenômenos ocorridos no espaço que
segundo Câmara (2004), constitui hoje um grande desafio para elucidação de
questões centrais em diversas áreas do conhecimento, com, por exemplo: saúde,
questões ambientais, na geologia, na agronomia, incêndios entre tantas outras.
De acordo com Xavier
(2004), o estudo da distribuição e o mapeamento de eventos espaciais vêm se
tornando cada vez mais comuns, pois, tem sido útil para traduzir padrões
existentes; gerar modelos explicativos de comportamento espaciais; mapeamento e
zoneamento de regiões; monitoramento de áreas de risco e proteção ambiental.
Assim, o
presente trabalho tem com objetivo identificar áreas de risco que precisam de
maior atenção em função da alta densidade de incêndio e baixa cobertura de
hidrantes para auxiliar os órgãos responsáveis na elaboração de medidas de
prevenção adequada à proteção contra incêndio urbano no Centro Histórico de
Belém.
Logo, é de entendimento
intuitivo a necessidade de se estudar de forma padronizada o assunto, para
tentarmos contribuir, com planejadores da segurança pública local, com dados
que possam servir como subsídio para estabelecimento de ações para redução os
índices atuais de incêndio urbano.
Grandes Incêndios urbanos do CHB
O Centro Histórico de Belém, com suas
construções do ponto de vista arquitetônico que datam períodos de plenitude, entre os quais,
o período áureo da borracha no início do século XX, precisa de maior atenção. Segundo
tenente Carlos Michida (2012), foi realizado mais de 365 fiscalizações em estabelecimentos
no CHB, todavia, apenas 25 estavam com todos os quesitos de segurança em dia.
Muitos estabelecimentos não possuíam os equipamentos de segurança necessários
contra incêndio, como os extintores, placas fotossensíveis com indicação da
saída de emergência e luminárias de emergência.
O primeiro grande incêndio que se tem relato em Belém ocorreu de no dia
13 de fevereiro de 1872. Até hoje não se sabe o que teria provocado, contudo
este destruiu completamente o palacete residencial (no local onde fica hoje a
Assembleia Legislativa do Estado) do influente político Dr. José Coelho da Gama
e Abreu, o Barão de Marajó, que viria depois ser presidente da Província, de
1879 a 1881 (MENEZES, 2004).
Mas, foi na noite de 14 de janeiro de 1902 para a
madrugada do dia 15 o pior incêndio já combatido pelo Corpo de Bombeiros. O
incêndio irrompeu na Travessa Campos Sales nº 5, entre Quinze de Novembro e
João Alfredo, no prédio onde funcionava a firma Frank da Costa & Cia, e
onde ainda hoje está instalada a Loteria do Estado do Pará.
A 1 ½ da manhã de hoje as cornetas dos quartéis
anunciaram que havia incêndio na cidade. Com effeito, à travessa Campos Salles,
na casa exportadora de borracha entre as ruas Conselheiro João Alfredo e 15 de
Novembro, lavrava forte e pavoroso incêndio, cujas causas, no momento, eram
ainda ignoradas, falando-se todavia que o incêndio tivera origem no saguão do
prédio. O fogo, na sua destruidora pavorosidade, comunicou-se ao armazém de
ferragens dos Srs. Bastos, Archer & Cia, contíguo ao prédio incendiado, à
travessa Campos Salles canto com a rua 15 de Novembro (MENEZES, 2004).
De acordo com Menezes (2004), um reporte das “Folhas do Norte” descreveu
a magnitude do evento: “O incêndio que deu origem à tragédia, da casa
exportadora de borracha, que durou vários dias, quase uma semana, com os
Bombeiros municipais e voluntários revezando-se para extinguir novos focos que
surgiam”.
Neste incêndio, autor afirma que
aconteceu uma catástrofe no Corpo de Bombeiros. Antônio Lemos trata o assunto
com “Luctuosa Catástrophe”. Antônio
Lemos relata que quando já pela manhã os Bombeiros trabalhavam no que hoje se
chama de “operação rescaldo”, ocorreu um desabamento. O mesmo com a veia
jornalística, de quem foi um dos fundadores do jornal “A Província do Pará”,
descreve a catástrofe: “o esmagamento de diversos bombeiros, inclusive da banda
de música do CBMPA, sob os escaldantes escombros, suas carnes dilaceradas,
rostos e cabeças sangrando, corpos mutilados”.
O
último grande incêndio no Centro Histórico de Belém aconteceu por volta das 23h
de domingo dia 26 de agosto de 2012. O incêndio de grandes proporções atingiu o
prédio do Ministério da Fazenda, onde funciona a Receita Federal em Belém, localizado
na Avenida Presidente Vargas. As chamas começaram em uma sala do 7º andar e
depois atingiram outros andares do prédio. Segundo o Corpo de Bombeiros, o fogo
se alastrou rapidamente por causa da grande quantidade de papel nas salas. As
chamas atingiram do sétimo ao 12º andar.Este incêndio provocou a redução dos
postos de atendimento da Receita Federal em quase 50%.
Neste contexto, em razão da frequente
precariedade das instalações elétricas, natureza dos materiais de construção
das edificações, às condições de segurança, acessibilidade, hidrantes sem
manutenção e vazão apropriada, falta de extintores portáteis nos
estabelecimentos comerciais, falta de equipamentos de detecção de incêndios e
principalmente a falta periódica de vistorias técnicas o centro histórico de
Belém com seus patrimônios históricos, vida humana e todos os bens pessoais dos
seus residentes necessitam de urgente intervenção para melhoraria da sua
segurança contra incêndio.
Assim, o Centro Histórico de Belém surge com uma área considerada de altíssimo risco em função da sua carga de
incêndio e que podem trazem como conseqüência danos econômicos, sociais,
financeiros e ambientais e a possibilidade da perda de vidas humanas em caso de
desastres por incêndios de grande porte.
Área de
Estudo
A área de estudo
consiste numa poligonal que engloba o bairro da Cidade Velha e Campina, com
coordenadas geográficas centrais de 01º27’17”S e 48º30’08”W. A Figura 1 mostra
o Centro Histórico de Belém composto pelos bairros da Cidade Velha e Campina.

Figura 1 - Localização do
centro Histórico de Belém.
Fonte: Adaptado de Guimarães, (2009).
O bairro da Cidade Velha é o mais antigo de Belém, onde em 12 de janeiro de 1616 surgir a
cidade de Belém. Possui inúmeros prédios coloniais históricos, com azulejos
portugueses, muitos dos quais tombados pelo
patrimônio histórico. O Bairro da Campina é uma referência para Belém, tanto
cultural como econômica. Abriga majestosos prédio que remontam período áureo da borracha como teatro da Paz e o Bar do Parque. Este espaço abriga também o cinema
mais antigo em funcionamento do Brasil, o cinema Olympia. Além dos prédios com
representações de empresas, o bairro configura-se como o coração financeiro da
capital do Pará.
Metodologia
Para o
presente trabalho realizou-se na primeira etapa uma pesquisa bibliográfica,
documental e de campo. Na pesquisa bibliográfica e documental, contemplaram-se
referenciais teóricos nas literaturas técnicas disponíveis em: livros, manuais
e legislações de outros Corpos de Bombeiros de nosso país.
Numa segunda etapa, foi realizado
o levantamento,
tratamento, tabulação e a geocodificação dos dados referentes às ocorrências de
incêndios, do Centro Histórico de Belém, registrados
pelas unidades bombeiros militar no banco de dados do Sistema de Cadastro de
Ocorrências de Bombeiros (SISCOB) de 2009 a 2011. Os dados do SISCOB são quantitativos
e qualitativos e referem-se ao número absoluto de ocorrências registradas e os
qualitativos à natureza das mesmas, de acordo com o local, classe, porte, tipo,
bem como ao fator locacional.
Na terceira etapa, com os dados sobre os
endereços dos hidrantes disponibilizados pela Companhia de
Saneamento e Abastecimento de Água do Estado do Pará (COSANPA), realizou-se o
processo de georeferenciamento dos hidrantes do CHB. Foram coletadas
informações das coordenadas geográficas “in loco” dos hidrantes existentes na
área de estudo. A posição espacial dos hidrantes foi obtida por meio de GPS (Global Positioning System) da marca
Garmin – etrex de 12 canais, do tipo métrico de navegação, com precisão
planimétrica de 5m e 10m. Além das coordenadas, realizou-se o levantamento da
situação física dos hidrantes, os quais foram registrados fotograficamente.
Neste processo foram relacionados 11 hidrantes na área de estudo (Bairro
da Campina e cidade Velha) pela COSAMPA que e Posteriormente com trabalho de
campo foi atualizado para 27 hidrantes encontrados no CHB.
Na quarta etapa, elaboraram-se as áreas de densidades de incêndios e hidrantes do Centro
Histórico de Belém, consideraram-se os eventos pontuais. A análise de
padrões espaciais é importante quando há interesse direto no fenômeno geográfico
e/ou processo em si. Neste processo utilizou-se o estimador de intensidade de
Kernel, para elaboração das áreas de densidade e incêndio e hidrantes, cujos
parâmetros básicos são: (a) um raio de influencia (r ≥ 0) que define a
vizinhança do ponto a ser interpolado e controla o “alisamento” da superfície
gerada; (b) uma função de estimação com propriedades de suavização do fenômeno.
“A função da estimativa Kernel analisa os pontos de eventos considerando um
malha ou grade de células pré-estabelecidas, calculando a quantidade de
repetições de eventos dentro de cada célula e em suas proximidades utilizando
algoritmos de distâncias, gerando um valor de densidade” (GUIMARÃES, 2009,
p.93).
Na quinta etapa, realizou-se a construção da base do Centro
Histórico de Belém geocodificada (streetbase)
com os endereços de porta de cada lote e confecção dos mapas de Belém, foi
utilizada a base cartográfica digital da Companhia de Desenvolvimento e
Administração da Área Metropolitana de Belém (CODEM), no formato DWG/CAD
(desenho de objetos vetoriais). Estes foram processados e convertidos, segundo
a natureza de informação e de tipologia geométrica para o formato “shapefile” (SHP), mantendo o sistema de
coordenadas planas originais do arquivo da CODEM, para haver posterior
compatibilidade no caso de expansão da área de estudo.
E por fim, na sexta etapa, utilizou-se o sistema
de Informações Geográfico (SIG) software ArcGis 9.3 para armazenar em forma de
camadas de informações que corresponde ao tema estudado. O programa favoreceu a
criação de mapas com a finalidade de evidenciar a localização das ocorrências
de incêndios no triênio 2009 a 20011 no CHB, a localização dos hidrantes do
CHB, as regiões espaciais de maior densidade de incêndio e hidrantes e outros. Para
construção das bases de dados inter-relacionáveis de informação utilizou-se o
esquema lógico abaixo (figura 3).
